segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O excesso para abrir as vias do afeto

Na semana passada, Giselle nos passou um aquecimento que funcionou muito bem para mim.
Habitualmente, aquecemos corpo e voz mais mecanicamente e depois passamos para um exploração dos movimentos da bacia, que reverberam para todo o corpo em som e movimento. Em seguida vamos trazendo palavras, frases das personagens e improvisando pelo espaço, às vezes criando relação com outros, às vezes na nossa própria viagem.
Sei que nesse dia o comando foi que exagerássemos, fôssemos nos excessos, explorássemos outros lugares sem julgar, mesmo que aparentemente não houvesse ligação com a construção da personagem (esse é um constante exercício de [construção e desconstrução] para um não congelamento da forma que é bem interessante, penso).
Ir nesse máximo foi ótimo para mim. "Gastando" a energia no aquecimento, quando fomos passar de fato as cenas da peça, estava energizado, o corpo vibrátil, e ao mesmo tempo mais poroso ao que acontecia. Ter gastado antes me esvaziou, e não fui pra cena ligado no 120 - o que tenho descoberto ser importante para a escuta, a consciência da cena, a abertura. Resumindo: experimentar o lugar do excesso me ajudou a posteriormente dosar minha energia, não me ensimesmando a ponto de não me afetar pelos outros, pelo público, o espaço, etc (como já aconteceu). Abri, abrir, abrir... Lembrei do Ferracini na aula aberta: pra fora, necessariamente pra fora!

PS: Ontem no ensaio de domingo Giselle deu uma excelente direção antes de passarmos o primeiro bloco. Falou sobre afetar-se, estar no aqui-agora, deixar que as coisas e pessoas te atravessem, sobre não forçar a barra se determinada ação não vier - choro, riso ou quaisquer outras, de que o corpo nos dá muita emoção, nos leva a lugares potentes, se tivermos a percepção de ouvi-lo (estava relendo todo o blog agora e li uma anotação justamente nesse sentido); e falou sobre o prazer de interpretar, de não perdermos de vista o prazer de fazer aquilo. Foi minha melhor passada da cena do Brinde.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Falta, meio e excesso

Quem eu seria se fosse Antônio?
Se tivesse me formado em Administração de Empresas na UnB, e hoje trabalhasse em uma multinacional, em um cargo de chefia? Ou em uma empresa de publicidade, ponte aérea Rio-São Paulo? Eu, outrora Francisco Carlos, já quis ser Roberto Justus, Francisco Justus. Existiu e existe Antônio Carlos em mim.

Preciso me aproximar deste personagem Paco~Antônio.

Ontem Lupe esteve no ensaio, foi a primeira vez que alguém de fora viu o que temos até o momento. Sua impressão foi de que estamos distantes do personagem, como se ele fosse uma meta, um objetivo láááá a ser alcançado, e não algo presente no aqui. Vê-se o desejo e a tentativa, mas que no geral estava fake, novelesco, global (ui). Comentou que esse fake é interessante, desde que seja a persona do personagem, a máscara que ele veste, quem ele tenta parecer ou aparenta ser.

“A arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”. Mentira difícil de fazer...

Falando da minha criação, a dica-comentário-ajuda-proposta é que eu tente menos. Para quem ele é hoje apareça (isso tem tudo a ver com a noção de esvaziar-se que tenho “procurado”). Se ele tem 24 anos, ele tem 24 anos. Não preciso tentar parecer mais velho. Falamos muito sobre um estado de não-representação (a arte de não-representar como poesia corpórea do ator, já dizia Ferracini...). Um estar presente que já diz, já passa informações. Sobre um estado, uma pulsão ou energia que serve de força motriz e que você domina e brinca com ela a cada dia, a cada ensaio ou apresentação. Você tem propriedade e segurança para manipular esse estado, mesmo dentro das marcas.

E nessa energia, como uma dança, é importante dar as nuances, transitar entre a FALTA, o MEIO e o EXTREMO. Foi citada a cena do “Nem Aí” em que eu tinha um estado de presença muito forte (cena da Euforia) e fazia de tudo para manter essa energia em cima, jogando com o que se fazia presente naquele dia: eu mesmo, os outros, o público, me deixando afetar constantemente.

Como posso fazer isso com todas as cenas? Ter consciência e domínio da cena, do estado, para poder brincar com ele.

Comentei sobre um trecho que li no livro “Um Sábio Não tem Ideia”. Jullien fala sobre esses três lugares:
“Uma pessoa pode conduzir-se de formas diametralmente opostas, e ambas podem ser meios, ambas podem ser justificadas; em outras palavras, todas essas experiências podem ser “desenvolvidas até o extremo” e ser meios. (...) Porque compreendamos direitor de onde vem o meio: não é parar no meio do caminho, mas é poder passar igualmente de um ao outro, ser capaz tanto de ser um quanto do outro, não se atolando em nenhum lado, é isso que constitui a “possibilidade” do meio.”

O figurino também já diz juntamente com as ações. As ações estão boas, agora é trazer pra perto mim. Sempre serei eu, Paco, interpretando. Por que esconder o intérprete? A Fernanda Montenegro é sempre a Fernanda Montenegro.
Ele também comentou que os momentos interessantes se davam quando parecia que eu não estava representando – na hipnose, quando falava junto com outros, ou quando estava sendo eu mesmo (Paco com o figurino), trocando uma ideia com a Júlia... E que Gustavo e Thaisa (surpreendentemente) eram os que mais se aproximavam de uma ação realista – verossímel – apesar de não alcançarem o público com potência no palco. Porque não estava tentaaaaaando.

E o público, mais uma vez. Não ignorá-lo. Se há uma abertura, por que falar com um som, uma cadeira, e não com uma pessoa?


Enfim, muitos questionamentos e um desejo de explorar isso agora. 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Divagações e Encontro privê

Acho que independentemente do resultado, o processo tem sido rico.
Repetir, repetir, melhorar, pensar, repensar, questionar, mudar, manter, se relacionar, trocar, comungar, ser paciente, respeitar, ir além, resgatar, descobrir, viver a personagem, descobrir e representar outro mundo, outras histórias, acreditar em um discurso, horizontalizar alguns sentidos, verticalizar outros...
Estou no estágio em que acordo e durmo pensando no Antônio. Sonho com os ensaios, com os demais personagens, com as situações. Ora é esgotador, e eu preciso encher a cara para esquecer um pouco e conseguir dormir sem acordar no meio da noite. Em outros momentos é ótimo, porque sinto que está borbulhando, e a cada dia algo cresce. Dizem que quando você sonha em outra língua, quer dizer que ela está se fixando em você... Se estou sonhando com a personagem, talvez ela esteja entrando mais na minha pele.
Hoje trabalhamos repetidamente a cena do Encontro Privê. É a cena em que o lado perverso da personagem mais aparece. A direção diz que ele é ainda mais perverso do que estou fazendo, em alguns momentos aparece o Paco - ordenando com certa gentileza, a voz aguda às vezes aparece. Tento de outra forma, tento fazer diferente, falar outras frases, provocar mais. É difícil, a cena é complexa. Três ouvidos são necessários. Preciso estar atento a todos - Carla, Gabi, Natasha, público, às marcas, ao mesmo tempo esquecer as marcas, viver a cena. De certa forma eu comando a cena, e não paro. Cocainado!!! Tenho que manter a energia alta todo o tempo, ritmo acelerado, e deixar as micro-cenas dentro da cena finalizarem.
Você pode continuar dançando. Continua dançando. Mas dança mais igual homem.
O jogo de tensões também é intrincado. Tem que segurar a tensão, mas não deixar que ela se delongue demasiadamente.
Com cada garota de programa, há uma relação: Com Carla, Antônio é mais abusivo. Dá tapas, lambidas, enfia o pau no cú, fala que ela não pensa, manda e ela obedece, porque ele paga mais. Com Gabi há certa cumplicidade. Ela se aproveita da situação para tirar casquinhas de Carla. Monta nela com prazer, enfia o pau no cú dela com certo prazer. Gabi pega um rabicho da perversidade de Antônio. Ela conhece a brincadeira, não é a primeira vez. E entra no jogo, gosta do jogo. Pega no seu pau, na bunda. Quando Antônio oferece dois mil pau pra fazerem seu pau subir, ela é a primeira a ir, ambiciosa. Com a Natasha há um desprezo inicialmente. Sai fora. Durante a cena a coisa vai mudando... Antônio a provoca, mas se deixa levar também. Há um interesse nela, olhares. Quando finalmente ela o pega de jeito, por trás, dá uma encoxada... Algo acontece!!
E daí pra frente é entrega, tesão, pau duro, lambida, beijo, língua, boquete, orgasmo!!! Depois de muito tempo - 6 anos, um orgasmo gostoso. Antônio ri e grita, comemora de satisfação.
AHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!
Intenso.

Amanhã tem mais.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Apresentação

Nesta cena Antônio está se arrumando em frente a um espelho, que é segurado por Susi, sua secretária. Ele a ignora. Está se preparando para um discurso, uma fala pública, pensando coisas, falando pra si mesmo.

A ação de falar se olhando no espelho simboliza sua característica narcisista e a super valorização da imagem. Ele é mais importante do que os outros. Estes, por não se assemelharem a ele, à sua imagem, é que estão errados, e isso lhe gera desapontamento e preguiça de se relacionar. Antônio tem o rei na barriga, as coisas acontecem em função dele, sempre giraram em torno dele, desde criança (mais sobre isso na cena seguinte). O texto expressa sua visão neo-liberalista de mundo, em que reconhece o abismo entre ricos e pobres mas não se incomoda com ele: o pobre é realmente escada, é massa necessária para o bem de poucos outros, "é importante para o crescimento". Deles, Antônio quer distância, a não ser quando contrata garotas de programa. Aí não importa de onde elas vem, e se são pobres, melhor ainda, pois pode humilhá-las com mais gosto. O interesse em chamá-las não é para transar, mas sim humilhá-las, exercitar sua perversidade e crueldade, se divertir às custas de sua superioridade e da inferioridade delas.  

 Os mendigos na rua estão ali porque são vagabundos, porque não trabalham. Antônio vê por essa perspectiva. Determinação social? Herança histórica? Exclusão? Antônio não se dá ao trabalho de pensar sobre a pobreza, é algo muito distante. Ele vê como preguiça - todos podem "construir uma vida, ser alguma coisa". As doações não são por solidariedade ou desencargo de consciência, mas sim pretextos para promover eventos nos quais ele encontra pessoas do seu meio, da high society, o alto escalão. Status e contatos.  

Apesar da fala refletir um pensamento egoísta e individualista, para Antônio ele não está corrompido. Por isso o tom é cínico e jocoso, até porque ele diz que trabalha para ter o que tem, mas na realidade não teve que lutar por nada, nasceu em berço de ouro e herdou a empresa e herança do pai. Quando vê Susi, seu olhar é de pena e escárnio. Ela é sua diversão diária. 

O Brinde

Nesta cena, Antônio está desiludido, fracassado. É o fim no começo - toda sua trajetória na peça já aconteceu. Não que ele tenha se transformado completamente, deixado de ser quem ele é - um personagem perverso - mas após ter (re)descoberto sua sexualidade, se apaixonado, perdido um pouco de sua casca, ele volta ao seu pequeno aquário. A pressão da sociedade o amarra de volta. Nele, há uma "consciência demasiadamente viva da sua própria degradação; a sensação de ter chegado ao derradeiro limite; de sentir que, embora isso seja ruim, não pode ser de outro modo; de que não há outra saída; de que nunca mais será diferente, pois, ainda que lhe sobrasse tempo e fé para isso, mesmo porque em que se transformaria?" (trecho de Memórias do Subsolo - Dostoiévski).
Ele terminou o romance com a travesti Natascha. Romance ~ amor ~ que lhe deu um sopro novo de vida, que o fez gozar a vida. Não suportou que seus funcionários soubessem de seu caso com uma travesti. Deixou de ir para o escritório, está indiferente a tudo. Moribundo. Olheiras nos olhos, descrença. Esgotado.
Em uma mão, uma pílula. Na outra, uma taça. O brinde é ao mundo lá de fora. Grande merda de mundo. Saúde. Ao mundo de dentro - "A verdade". Para ele a única verdade nesse momento é que está sozinho, e a morte não lhe parece ruim.
Junto dele, outros personagens. Natascha, Carla, Gabi, Susi, Catarina são as que ele melhor conhece. Outras garotas de programa das quais mal lembra o rosto. Virgínia e Mark, colegas de terapia que também mal conhece, nunca se interessou por eles.
Sentindo os efeitos da pílula, a morte iminente, tenta uma aproximação com Carla. Um pedido de desculpas desajeitado, agressivo. Roga por qualquer manifestação ou troca de afeto de alguém em relação a ele, mas não sabe rogar. Nunca precisou pedir, pedir com carinho, com cuidado (a não ser com Natascha). Antônio sempre mandou, e os outros obedeceram. Carla se desvencilha - com razão, as cicatrizes ficam. Aborda Natascha, e com os olhos tenta dizer, é a última chance de dizer que foi um bosta, que a ama, que sente muito, que não conseguiu aguentar a pressão, o auto-julgamento, que o perdoe, que fique com ele nesse último suspiro... Ela sai. Não dá mais tempo, é tarde demais. A merda está feita.
Então ele toma a pílula. Foda-se. Chamam isso de vida? Passa mal, cai, o corpo treme, ele grunhe. Natascha passa, ele agarra seu pé, desesperado. Novamente ela se desvencilha. Na cabeça, nada, só desespero pois tem consciência do que acontece. Vê os demais se estrebuchando no chão, vê as luzes no teto. Esse é o fim. Está morrendo sozinho. De repente, um prazer. De uma parte do seu corpo, de outra, de todas imerge um imenso prazer. O efeito do remédio se mistura ao prazer orgasmático, ao êxtase. Imagens passam velozes por sua cabeça. Os outros também gozam. Uma sinfonia de gritos, gemidos, risadas, farfalhar de corpos, sexos. Tudo é sexo!! É assim o fim!?


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