Nesta cena, Antônio está desiludido, fracassado. É o fim no começo - toda sua trajetória na peça já aconteceu. Não que ele tenha se transformado completamente, deixado de ser quem ele é - um personagem perverso - mas após ter (re)descoberto sua sexualidade, se apaixonado, perdido um pouco de sua casca, ele volta ao seu pequeno aquário. A pressão da sociedade o amarra de volta. Nele, há uma "consciência demasiadamente viva da sua própria degradação; a sensação de ter chegado ao derradeiro limite; de sentir que, embora isso seja ruim, não pode ser de outro modo; de que não há outra saída; de que nunca mais será diferente, pois, ainda que lhe sobrasse tempo e fé para isso, mesmo porque em que se transformaria?" (trecho de Memórias do Subsolo - Dostoiévski).
Ele terminou o romance com a travesti Natascha. Romance ~ amor ~ que lhe deu um sopro novo de vida, que o fez gozar a vida. Não suportou que seus funcionários soubessem de seu caso com uma travesti. Deixou de ir para o escritório, está indiferente a tudo. Moribundo. Olheiras nos olhos, descrença. Esgotado.
Em uma mão, uma pílula. Na outra, uma taça. O brinde é ao mundo lá de fora. Grande merda de mundo. Saúde. Ao mundo de dentro - "A verdade". Para ele a única verdade nesse momento é que está sozinho, e a morte não lhe parece ruim.
Junto dele, outros personagens. Natascha, Carla, Gabi, Susi, Catarina são as que ele melhor conhece. Outras garotas de programa das quais mal lembra o rosto. Virgínia e Mark, colegas de terapia que também mal conhece, nunca se interessou por eles.
Sentindo os efeitos da pílula, a morte iminente, tenta uma aproximação com Carla. Um pedido de desculpas desajeitado, agressivo. Roga por qualquer manifestação ou troca de afeto de alguém em relação a ele, mas não sabe rogar. Nunca precisou pedir, pedir com carinho, com cuidado (a não ser com Natascha). Antônio sempre mandou, e os outros obedeceram. Carla se desvencilha - com razão, as cicatrizes ficam. Aborda Natascha, e com os olhos tenta dizer, é a última chance de dizer que foi um bosta, que a ama, que sente muito, que não conseguiu aguentar a pressão, o auto-julgamento, que o perdoe, que fique com ele nesse último suspiro... Ela sai. Não dá mais tempo, é tarde demais. A merda está feita.
Então ele toma a pílula. Foda-se. Chamam isso de vida? Passa mal, cai, o corpo treme, ele grunhe. Natascha passa, ele agarra seu pé, desesperado. Novamente ela se desvencilha. Na cabeça, nada, só desespero pois tem consciência do que acontece. Vê os demais se estrebuchando no chão, vê as luzes no teto. Esse é o fim. Está morrendo sozinho. De repente, um prazer. De uma parte do seu corpo, de outra, de todas imerge um imenso prazer. O efeito do remédio se mistura ao prazer orgasmático, ao êxtase. Imagens passam velozes por sua cabeça. Os outros também gozam. Uma sinfonia de gritos, gemidos, risadas, farfalhar de corpos, sexos. Tudo é sexo!! É assim o fim!?
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