segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Pesquisas na psicanálise para a terapia

Anotações:

Dependência estrutural da função paterna

Sexualidade abafada?

Caso Schreler: um pensamento “...de que deveria ser realmente belo ser uma mulher se submetendo ao coito...”, 

com certeza para Antônio viria repleto de culpa e incompreensão
angústia
sempre teve tudo
a minha casa era cheia de narcisos.

Queria ser igual ao pai, o admirava, como exercia poder sobre as prostitutas, mas não sentia desejo, pois era gay... isso gerou culpa e frustração, o que o levou a ser ainda mais narcisista, centrado no seu eu, e a replicar o hábito do pai – de contratar prostitutas. A mãe sempre dizia que ele se parecia com o pai, e que ele iria continuar os negócios. Havia uma obrigação de ser parecido com o pai.
Nunca se apaixonou
Pai.... Pai... (o pai depois passa a ser o rival – competição em relação ao desejo materno – complexo de édipo) : agressividade, matar aquele que ameaça o desejo.

Um espelho que deforme ??

O que, possivelmente, ocorreu com Narciso foi a falta da função paterna. Temos, então, um desejo materno que visa a morte e uma função paterna que não operou. Narciso não tinha outra saída senão a de ficar preso nessa relação narcísica mortífera. Não teve a condição de se constituir como sujeito desejante.


Pai... Pai... A minha mãe sempre dizia que eu me parecia com o meu pai, que eu ia continuar os negócios da empresa. E eu queria ser igual ao meu pai. Poderoso... A casa cheia de prostitutas. O perfume dos narcisos... A minha mãe não sabia, mas eu sabia das festinhas particulares! Eu sabia porque ele me levava. E eu queria ser igual a ele, comer uma, duas, três... Mas não dava, não dá, não vai, não vai, não ia... Então eu bebia e cheirava... Eu ficava tão louco. Eu queria matar meu pai, porque minha mãe... ela não sabia das festas... e mesmo assim ela nunca estava comigo e idolatrava aquele filho da puta.

Cena Terapia a partir dessa pesquisa e sugestões do Fernando depois da apresentação do texto bruto:

A casa tá cheia. Cheiro de whisky, cigarro, sexo. Tudo é sexo. Perfume barato perfume de narcisos. Minha mãe adora encher a casa de narcisos brancos.
Vc é tão parecido com seu pai.
Vc é tão parecido com seu pai.
Vc é tão parecido com seu pai.
(balança pinto)
Não sobe, não vai. Não sobre. Elas esfregam em mim mas não sobe. Elas esfregam mas não adianta.
(agarra pinto)
Eu sinto vontade de matar meu pai.
(gesto mãos aflito) Sua tola, mesquinha, as putas !
(gesto mão narcísico) A empregada viu.
PERGUNTA CATARINA: Quando foi isso, Antônio?
(vai pra criança) - –  Traz a minha mamadeira agora!! (choro-para-choro-para- choro-para, começa a pegar no pinto)
CATARINA: Tente ir em um lugar que vc nunca foi.
(faz buceto)
Eu queria ser a mulher de Deus.
CATARINA: Estimule esse ponto que nunca fui tocado.

(vai para cu)

Reflexões prático~teóricas

Sobre a primeira cena: Road to Nowhere.

Entramos com um comprimido na mão. Pegamos uma taça. Brindamos "ao Universo lá fora" e "a nós e a verdade". Tomamos o comprimido. Temos uma reação - vibrátil. Temos o maior orgasmo de nossas vidas. Morremos.

Sobre os gestos e ações dessa cena:

O gesto é uma ação periférica do corpo, não nasce do interno do corpo, mas da periferia. Ao contrário a ação é algo mais, porque nasce do interno do corpo, está radicada na coluna vertebral e habita o corpo. (Grotowski)

-> O movimento vibrátil vem de dentro: ao tomar o comprimido, ele gera um efeito interno, uma vibração que começa nos órgãos, estômago, pulmões, traqueia, bexiga, cérebro, veias, sexo, e se contamina para as extremidades, em espasmos. Na cabeça, um filme da vida da personagem (na concentração para a execução e percepção do movimento ainda não consigo trazer essas imagens, mas a princípio penso que Antônio se encontra desiludido da vida nesse momento. Ele se apaixonou pela primeira vez, viveu uma libertação sexual, o amor, ainda que questione o sujeito de seu amor. Mas seus funcionários descobriram o caso com uma travesti. Ele se envergonha, e a preocupação com a imagem, o auto-preconceito o impede de continuar. Termina o romance, não vai mais trabalhar. Se tranca, se vê completamente sozinho, portanto a morte não seria mal. "Ao Universo lá fora" - teria motivos para brindar ao universo lá fora? O Universo contribuiu para que ele se tornasse essa pessoa narcisista, umbiguista - a não presença dos pais, o dinheiro, o poder. À nós? Não se importa com as pessoas - a única pessoa com quem realmente se importou já não está na sua vida. A verdade - a morte - seria a única coisa que o faria brindar, uma possível libertação... A multidão também é hostil e horrível para ele, a multidão (e ele mesmo) o impedem de viver plenamente. Neste momento há uma grande tomada de consciência.

Ação física: um fluxo muscular-nervoso com total engajamento psicofísico em conexão ou com algo externo (seja objeto, espaço, outro corpo (ator ou espectador), imagem, e mesmo outra ação física) e que é formalizada, estruturada, ritmada, enfim, codificada no tempo-espaço. (Ferracini)


A ação física é relacional. A suposta “humanidade” e presença percebidas em uma ação física constroem-se nessa relação. Ela não mergulha em um suposto interior emocional do ator, ou se conecta com alguma essência humana profunda e interna. Muito pelo contrário, a ação física se conecta com o fora, ela é um corpo integrado - e por isso relaciona todo seu universo “interno” em fluxo – e projeta esse fluxo na relação com o mundo.

As bordas e fronteiras entre um suposto interno e um suposto externo se diluem na própria ação física. Ela - a ação - se projeta para fora ao mesmo tempo em que esse fora afetado, atinge e afeta ela mesma.

Interessante ressaltar a presença e afetação do outro nessa cena. Há uma atividade de construção interior, mas outras nove pessoas estão realizando a mesma ação física - estamos todos integrados, os gemidos, os corpos se debatendo no chão, os sons de orgasmo, as trocas de olhares - comungamos esse momento. A percepção do todo, como o todo afetae e como eu afeto o todo.


Na cena do espelho (que acontece posteriormente - a apresentação de Antônio), mesmo falando para mim mesmo, olhando no espelho, preciso pensar em quem afeto, em comunicar àquelas pessoas (mesmo que esteja falando merda) e em me deixar afetar por elas. Como eu me afeto se não há troca de olhares com o público? Talvez seja uma questão energética de compartilhamento do mesmo espaço: o teatro é um lugar de encontro e as fronteiras entre ator e plateia são tênues - a quarta parede nesse caso possui rachaduras, que permite o fluxo e troca de energia. Sem esquecer da reação da plateia, algo que ainda não sabemos como será.

Ação física (de Grotowski) corresponde à matriz (do LUME) que corresponde à Alegria (de Espinoza).

A capacidade de afeto de uma matriz determina sua própria potência. É o afeto e não a ação consciente do movimento que produz a potência da matriz. Quanto mais porosa a matriz, mais potente ela será. A capacidade de afetar-se pelo mundo e não a capacidade de atuação consciente
nele é o que define a potência da matriz.

Atividade ~ passividade

No corpo, assim como na matriz poética, o agir se produz pelo afeto. A preparação do ator deveria focar seu trabalho muito mais em sua capacidade e em seu poder de ser afetado do que em seu poder de afetar. É por isso que a pretensa intenção do atuador de “atingir o público” com sua
ação parte de uma premissa equivocada. O ator busca ser afetado pelo mundo ao seu redor para, com isso e por meio disso, agir diferenciando-se em suas micro-ações. Esse poder de ser afetado também não deve ser confundido como causa-efeito: o atuador não se afeta para depois agir. Ele, em realidade, age com o afeto, no afeto, pelo afeto.

***

-> Sobre a memória e como ela pode potencializar a cena do orgasmo. Nós partimos do corpo e do movimento para gerar em nós um estado sensorial (e irradiá-lo para o público), mas fiquei pensando também em outros sentidos que não vieram na experimentação (para mim): cheiros, sabores e imagens que podemos trazer para nos ajudar a potencializar esse estado. Mas me parece que as memórias acionadas nessa cena não são imagéticas, elas tem essa característica ontológica citada por Ferracini. Também na cena da terapia, essa questão da memória pode ser pensada:

A memória virtualiza o passado em um presente que sempre passa. Mas o passado virtual não se traduz por arquivos acumulados em formas de lembranças concretas, mas precipita-se em uma duração virtualizada que se in-corpora independentemente de nossa vontade e gera uma espécie de memória ontológica ou ainda uma memória em duração corpórea.

Mas a ação de atualização não é uma ida do presente ao passado em uma espécie de re-vivência da lembrança, mas uma atualização é uma vinda do passado ao presente que gera uma recriação da lembrança enquanto potência virtualizada no aqui agora. É por isso que toda atualização é uma criação: a vinda do passado ao presente recria a passado nesse mesmo presente.


Acredito que haja uma espécie bem específica de atualização de memória que é a sua atualização corpórea para um fim estético. Estamos falando, agora, da capacidade do atuador em buscar uma atualização dessa virtualidade de memória, recriando-a em um fluxo corpóreo poético (...) realizada por meio de ações físicas ou matrizes corpóreas. (...) Atualização de vivências e experiências com o corpo, pelo corpo, através do corpo.

Sobre a Vivência e complementando:

Claro que não estou falando aqui de um elemento meramente mental no sentido de uma lembrança racional, mas essa vivência como virtualidade potente no próprio corpo-memória, ou seja, não devemos entender memória e vivência como experiências mentais ou meramente imagéticas, localizadas em um ponto específico chamado cérebro, mas devemos entender essas vivências como vivências corpóreas, vivências-subjéteis. Será que ainda necessitamos provar o corpo integrado? Memória é corpo, já gritavam tantos pesquisadores teatrais. Continuemos a gritar, então...

Por meio do afeto, e não da ação consciente no espaço-tempo e da precisão de sua mecanicidade, ampliamos o conceito de “treinamento”: um “treinar” pode estar inserido na ação de, por exemplo, sair às ruas e vivenciar experiências, observar os fluxos cotidianos, olhar as relações sociais a ponto de gerar um afeto, uma experiência e uma vivência intensiva. Um ensaio pode ser um estado de trabalho constante na busca de experiências e suas vivências e, é claro, o próprio estado cênico se configura como uma fonte constante de experimentação. O território do “treinar” é muito mais amplo que um espaço-tempo destinado à realização de exercícios mecânicos ou busca de precisão plástica. O “treinar” se configura muito mais como uma postura ética na relação com o corpo, com o espaço, com as relações sociais, com suas próprias singularidades. Um atuador deve estar em constante treinamento ou, em outras palavras: um performador deve estar na busca constante de fissurar seus limites de ação procurando uma potência possível de expressão, seja em uma sala de trabalho, seja no ensaio de um espetáculo, seja dentro do próprio espetáculo, seja em um happening ou uma performance. No espetáculo e na ação performática se treina, assim como no cotidiano pode se encontrar estados cênicos. O importante é encontrar potências de experiências que produzem vivências e que em si mesmas mantêm sua força vital: experiência como força motriz que lançadas como virtuais potentes na memória dos atuadores serão sua fonte inesgotável de organicidade e vida em toda sua força de diferenciação.

(In Revista Urdimento, artigo Ação Física: Afeto e Ética, de Renato Ferracini)


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Atualizando

Tive um pequeno nervous breakdown
Quando pensei que o Antônio não mais teria necessariamente uma casca, materializada, explícita, me joguei um balde de água fria, uma vez que o que estava criando e concebendo mental e corporalmente já não seria usado. Não que vá abandonar, não quero jogar as coisas fora, mas isso muda a perspectiva de construção da personagem. Vi que a doença já está nele, já é ele. A forma que ele sempre agiu desde criança e continua agindo com os outros, sua visão de mundo, as ideologias (ou falta de), os preconceitos, a imensa preocupação com a imagem que projeta - tudo isso é a cascaridíase.

Acho que foi na segunda-feira, aquecemos a partir dos chakras e cheguei a lugares que considerei ótimos. Falei o texto das árvores com meu corpo todo tensionado de uma forma que me satisfez. Em outro momento, falava do cheiro das putas, do cheiro de perfume barato, também totalmente entregue e seguro. Todos estávamos explorando ao mesmo tempo, chakras, reverberação no corpo, movimento, voz, textos (normalmente o - eu não tenho paciência pra incompetência, pra gente burra). Depois, cada um teve um momento individual e nos foi pedido que quando chegasse a vez de cada um, que apenas disséssemos o texto, ou seja, que não construíssemos. Era pra coisa brotar, do vazio. Mas na minha vez, já havia construído tanto, tinha tantas coisas na cabeça que fiz o improviso, mas com uma péssima escuta. Não vi ninguém, não ouvi direito, não usei o texto que havia explorado, até tensão nas mãos me deu - coisa que há muito não se passava comigo. E também fui para um lugar de interpretação que não me considero bom. 
Depois, em roda, relatei que sentia que quando saía da minha fisicalidade e ia para um lugar mais realista, verossimilhante, brochava, não me saía bem. Então a Giselle me perguntou por que eu não retomei a fisicalidade na hora da investigação individual, se sei que nela está minha potência. Hum, boa pergunta. Conversando com o Marcelo pensei que poderia ser pelas altas expectativas que criei sobre o resultado e por ter ido demasiado cheio. E aí está o desafio -  conseguir resgatar ou acessar no momento da cena o que surgiu e foi potente no pré-expressivo. Que mecanismos, aonde está no corpo, que impulsos...? Preciso guardar, aprender a registrar para depois retomar e executar a cena utilizando o meu forte, e manipulando a interpretação a partir desse lugar forte. Não que seja incapaz de fazer uma interpretação realista, mas sinto que quando parto da fisicalidade é muito diferente, e quando vou direto pra cena, desanda. Nem que seja mínimo, não dá pra ir no seco.
O vazio tem se mostrado uma possibilidade de foco para minha monografia e quero trazê-lo mais à prática. O vazio para o improviso e a criação.

Enfim, fora isso, hoje ausente dos ensaios por motivos estomacais e alérgicos (como é psicossomático! - no caso de Antônio sua perversidade aparece na forma de coceiras, de pequenas cascas que tenta esconder), escrevi dois pequenos textos seguindo a ideia das narrativas dos personagens sobre os outros e sobre si mesmos:

Antônio sobre si:
O que eu tenho a ver com a pobreza do mundo? É minha culpa se tem mendigo na rua? O que eu tenho fui eu que ganhei. Eu construí a minha vida, o meu sucesso, minha prosperidade. Não sei se tem lugar pra todos aqui. Ando preferindo nem sair de casa, mando a Susy resolver minhas coisas. Eu fecho a janela quando abordam meu carro. Fecho. Me sinto ameaçado. Fui ao supermercado e na saída umas crianças vieram me pedir dinheiro, e eu tenho que dar né, porque senão vão riscar o meu carro inteiro. Eu já faço minhas doações pensando que eu não vou ter que passar por isso, mas parece que não adianta fazer a sua parte. Eu trabalho pra ter o que eu tenho. Se neguim não trabalha, fica coçando o dia inteiro, depois não vem reclamar... vai construir sua vida.

Me inspirei em um trecho do documentário Four Hourseman:


A ideia era: constrói a tua própria vida, sê individualmente ambicioso, e então terás sucesso individual, e serás individualmente próspero, e então serás individualmente feliz. Acabas sendo tudo isso num frasco de vidro e o frasco de vidro tem uma altura limitada, e é hermético, e no fim vais morrer com falta de oxigênio

Antônio sobre Susy:
A Susy se mudou aqui pro escritório há algum tempo. Eu acho que ela tá bem. Cobrança sempre vai ter... Pra ganhar o que ela ganha tem que ralar mesmo. Eu sou exigente, mas não maltrato funcionário. O que eu reclamo é da aparência. Um regimezinho não ia mal, né? Se ela fechasse um pouco a boca, já ajudaria. Agora parece que ela gosta mesmo de comer aquilo. É uma porqueira em cima da mesa... Realmente eu vou diretinho pro céu. Eu poderia ter a secretária que quisesse, e é a Susy que tá aí. E muita gente queria estar no lugar dela, ganhando o que ela ganha, é um emprego ótimo. Talvez se ela arrumasse um namorado, trepasse de vem em quando, melhoraria aquela cara de bosta. Mas quem vai querer um bujão daquele? E com puta ou muchê ela não quer, já ofereci. Enfim.

Precisam ser melhorados.

Também numa pesquisa rápida achei dois looks para figurino. Gostei do preto e das diferentes texturas e tonalidades. Tenho usado uma roupa x nos ensaios, mas quero começar a definir melhor. O tempo urge.