quarta-feira, 30 de julho de 2014

do contrato ou convenção artística que se estabelece entre o ator e a plateia:
Eu (ator) posso colocar as cascas de Antônio (personagem) descaradamente, na frente do público.

Para ele, hoje imaginei uma figura bem magra, esguia, preto básico, metido, meio insuportável. First image (embora mais jovem)


terça-feira, 29 de julho de 2014

A Metaformose - Kafka

Me veio essa referência à cabeça, acredito que dialoga com a sugestão que a Giselle havia dado de Antônio ter um diário em que relata o aparecimento e desenvolvimento de sua doença, ao invés de aparecer em um talkshow. Estou à procura de materiais e inspirações poéticas, uma vez que tenho mergulhado mais em referências estéticas e teorias em Meyerhold, Brecht, Pina, autores que tratam do grotesco. A ver...


HQ de Peter Koper, disponível em: www.ebah.com.br/content/ABAAABf34AC/hq-a-metamorfose-kafka#

A obra: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00106a.pdf


segunda-feira, 28 de julho de 2014

Antônio: Individualidade e Indiferença

casca - exterior - forma - embalagem - apatia - blasé

interior - conteúdo - substância


indiferença: aniquilamento de todo sentimento.

Outros dualismos que podem se encaixar no grotesco e também no universo da prost. sexual:
aprovação e desgosto; maravilhamento e aversão; prazer e repugnância.

Humihar as pessoas, funcionários, familiares.Trabalho intelectual x Trabalho braçal - preconceito em relação às prostitutas.

O estilo de vida das grandes cidades estabeleceu um maior contraste nessas diferenças, além de estabelecer uma nova e característica forma de interação, que implica em relações anônimas e o desinteresse pela personalidade alheia. Implica também em aceitar uma ordem social injusta, através das diversas coerções sociais nem sempre evidentes, mas que dão origem a um processo de submissão que produz, quase sempre, uma atitude humilde, mesmo que mesclada de ressentimentos, naqueles que constituem a camada subordinada em uma determinada sociedade.

-> Em uma discussão, num encontro de Antônio com uma garota de programa ou travesti, ele poderia ser escroto e ela se resignar em uma atitude humilde. Isso acontece em Querô (Plinio Marcos), no momento em que Querô procura uma travesti e depois a agride violentamente. Por estarem nessa camada socialmente subordinada, essas pessoas são humilhadas e mesmo assim muitas vezes não reagem, não sabem o que dizer, abaixam a cabeça, por não reconhecerem seu valor ou não terem seu valor reconhecido na sociedade. O que Boal diz da consciência do domínio da palavra, imagem e som, como todos deveríamos deter esse poder.


Essa perda de valor, essa vulgarização das coisas marca o homem moderno, transformando-o no que Simmel chamou, em seu artigo A metrópole e a vida mental, de homem blasé (Simmel, 1979). Esse tipo é característico das metrópoles quanto a sua atitude de perseguição ininterrupta ao prazer, aos estímulos cada vez mais fortes e que muda rapidamente suas atitudes, muitas vezes contradizendo uma a outra.


-> Esse homem blasé pode se refletir no olhar de peixe morto, no desinteresse pelo outro, no não se afetar com problemas alheios e também em uma outra faceta, a da busca por prazeres imediatos, seja no sexo, nas drogas. A contradição pode aparecer na forma como trata a fonte desses prazeres, como objetos, instrumentos que trabalham para ele. 


 Essa busca crescente torna o indivíduo incapaz de reagir a novas sensações, transforma-se em alguém indiferente, não se surpreendendo com nada que aconteça. Simmel denomina essa atitude de "embotamento do poder de discriminar" e atribui o seu surgimento também à economia do dinheiro, pois arranca a individualidade das coisas, seu valor específico, sua incomparabilidade.


-> Para Antônio, o dinheiro existe como fim, e não como meio. E tempo é dinheiro.


A metrópole moderna transforma-se em um ambiente artificial, dominada pelo dinheiro e pela lógica contratual, cuja vida e produção é voltada para o mercado, composto de personagens, na maioria das vezes desconhecidos uns dos outros, cujos únicos laços que os mantém juntos são os interesses econômicos. O homem da metrópole é anônimo, distanciado de suas realizações e de seus vizinhos. É então que Simmel fala de egoísmos econômicos, em cujas relações os indivíduos não precisam temer falhas devido aos "imponderáveis das relações pessoais". A essa maneira de se relacionar intimamente ligada à economia monetária, em que os que estão próximos são indiferentes uns aos outros, em que as relações são meros reflexos de contratos de trabalho e de troca de mercadorias, Simmel chamou de "atitude prosaicista".


...apesar da proximidade física e de estarem rodeada de outras, as pessoas não se aproximam nem mental nem emocionalmente. O indivíduo está 'sozinho na multidão', como se diz muito freqüentemente. O homem da metrópole tem a opção de se tornar o que quiser, ninguém o impede, mas é justamente aí, onde a indiferença do outro lhe alcança, que o homem contemporâneo, em particular, se dá conta de sua solidão. Ser livre para quê e para quem, essa é uma questão importante.


Referência: artigo "Individualismo e conflito como fonte de sofrimento social", Disponível em: http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/politicaetrabalho/article/view/6479/4044

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Meyerhold - primeiros trabalhos

- Não realismo;
- Estilizações simbolistas com clássicos.
- Expõe a maquinária da ilusão

Experimentações/métodos em alguns trabalhos:
Meterlinck:
- Pictorialism: disposing the human figures on the stage by bas-relief and frescoes
- Biomechanics: a means of revealing [the characters] interior monologue through the music of plastic motion

Tintagiles: O ritmo do som
a risada das empregadas, e
depois
o grito dos Tintagiles,
novamente a risada das empregadas,
o grito dos Tintagiles,
uma pequena pausa,
o som dos corpos dos Tintagiles caindo,
uma pequena pausa
a risada triunfante das empregadas.

Hedda:
Yet the first scene between Lovberg and Hedda was to consist of words recited in a monotone quite withou movement: "During all of this scene Lovborg and Hedda sit side by side - tense, frozen - and look straight ahead. Their exchange of lines, quiet, passionate, falls rhythmically from lips which are felt to be dry and cold. Two glasses are in front of them and the punch flame burns. Not once in the course of the whole scene do they change the direction of their gaze and their motionless poses. Only at the wors, "So there is in you too a thirst for life", does Lovborg make a quick gesture towats Hedda. But at this the scene brakes off. (p.34 - Meyerhold - The Art of Conscious Theater, HOOVER).

- poses que se assemelham ao Gestus de Brecht
- proximidade com o público (expressões sutis, nuances de voz

O grotesco como uma união de opostos.
Ex: Pierrot interpretado por ele na peça Farce.
"He is not in the least like those familiar, consciously sweet, whining Pierrots. All in acute angles with a muted voice, whispering words of not earthly sorrow, he's simultaneously full of barbs and insight, tender and impudent".

Do Grotesco e do Sublime

Domingo, 20 de julho

"A musa moderna verás as coisas com um olhar mais elevado e mais amplo [do que o cristianismo]. Sentirá que tudo na criação não é humanamente belo, que o feio existe ao lado do belo, o disforme perto do gracioso, o grotesco no reverso do sublime, o mal com o bem, a sombra com a luz". (pág. 27)

Uma natureza mutilada será mais bela?
O meio de ser harmonioso é ser incompleto?

Exemplos da comédia e figuras grotescas épicos: a cena de Menelau com a porteira do palácio (Helena, ato 1); a cena do Frígio (Orestes, ato IV). Os tristões, sátiros, cíclopes, grotescos; as sereias, as fúrias, as parcas, as harpias, são grotescas; Polifemo é um grotesco terrível; Sileno é um grotesco bufo. (Lorena: Grotesco-bufão) -> o grotesco antigo é um grotesco ainda tímido.

-> talvez seja mais interessante estudar personagens que segundo a divisão de Victor Hugo estão no Drama. Os seres mitológicos fazem parte da divisão Épica, anteriormente seria o Antigo (bíblico), e depois o Drama, que trata da vida, do homem, ilustrados nos personagens de Shakespeare.

No pensamento dos Modernos, o grotesco tem papel imenso: de um lado, cria o disforme e o horrível; do outro, o cômico e o bufo.



Estamira À Beira do Mundo, com Dani Barros. Inspiração.

Vídeo Antônio


Cascaridíase - desenhos de Ricardo Caldeira



Cena Cascaridíase

Um talkshow.

APRESENTADORA: Boa tarde, auditório. Boa tarde você aí de casa. Sejam bem vindos ao nosso programa. Hoje vocês vão conhecer o caso de uma família especial. Um drama que poderia acontecer com você, telespectador, ou com qualquer um de nós. Vamos conhecer a história de Antônio e sua filha Lúcia... Antônio sofre de uma terrível doença, nunca antes mostrada na televisão brasileira. A medicina não sabe explicar. Vamos conversar um pouco com Lúcia. Gostaria de convidar ao palco Lúcia.

Entra Lúcia

APRESENTADORA:  Boa tarde, Lúcia. Seja muito bem vinda. Então, conta pra gente o que está acontecendo com vc.

Lúcia não ouve direito. Cris a cutuca.

Lúcia: Oi? Perdão?

APRESENTADORA : O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ?

LÚCIA: Nada, estou ótima.

APRESENTADORA: A minha produção me informou que algo muito estranho está acontecendo com vc e seu pai.

LÚCIA: Ah... Eu e meu pai temos muitos choques ideológicos. As minhas inquietações não alcançam o seu terreno petrificado. Ele não consegue entender os grandes líderes, Che, Lenin, Marx, Kant, Jung.

APRESENTADORA (alto): Nossa gente, mas Lúcia é muito culta. Mas o Brasil quer saber: que doença vc está sofrendo?

LUCIA não ouve.

APRESENTADORA: E o seu pai?

LÚCIA: É culpa do capitalismo. Essa intransigência folclórica que é contundente e assola as nossas entranhas de forma que não conseguimos nem respirar. Eu não consigo respirar! Eu não consigo respirar!

Pausa de estranhamento.

APRESENTADORA (assustada, muda bruscamente o foco para as câmeras): Mas agora vamos falar de coisa boa! Gente... não adianta, quer ficar bacana em todos os sentidos? Adquira nossa yogurteira da Topterm, Ligando agora para o telefone 0800 666 123 vc vai rebecer 10 pacotinhos na sua casa e mais um kit pra fazer o seu yogurt ficar ainda mais gosto e saudável. E para os primeiros 100 pessoas que ligar o frete é gratis. Ligue agora.

APRESENTADORA: Vamos voltar ao caso de Lúcia. Então, vc acredita que essa doença possa ser contagiosa?

Lúcia: Que doença?. Se o presente é de luta, o futuro nos pertence!

APRESENTADORA: Lúcia, você se sente mal com a doença de seu pai?

Lúcia não escuta.

APRESENTADORA (um pouco irritada, tentando manter sua imagem, irônica): Lúúúcia, Lúcia, será que você não está nos escondendo nada? Vamos para um pequeno intervalo, não saia daí.

Breve comercial:
(Durante o intervalo a apresentadora se mostra agressiva, reclama enfurecida com a produção de escolher uma menina tão tapada para ela entrevistar. Reclama que a luz está incomodando, que o ar está muito gelado. Aí vem o maquiador, ela é grossa com ele, vem uma pessoa lhe trazer uma água para acalmá-la e ela também reclama. Dá chiliques.)

CRISTIAN LUZ. SOM. VOLTANDO EM 5, 4, 3, 2 .1

(Apresentadora fica imediatamente sorridente e simpática, após o 1)

Volta do intervalo: Música de suspense

(Aparece um desenho explicativo. Olha nas fichinhas, apontando o desenho)

APRESENTADOR: Bom, antes de chamar Antônio, pai de Lúcia, vamos ver esse VT. Acompanhem no telão.

Projeta-se video animado.

A doença de Antônio recebeu o nome de Cascaridíase. A doença é caracterizada pelo crescimento de um extrato externo e epidérmico, formado por tecido morto. Embora exames tenham indicado que no interior de Antônio ainda exista tecido vivo, mole e úmido, este homem vem perdendo gradativamente sua capacidade de se mover e de estabelecer relações afetivas.
APRESENTADORA (suspeitoso): Realmente um coisa preocupante, que situação difícil Brasil. (pequena pausa para dar mais tensão) E se fosse com você, telespectador, telespectadora? (pausa) Emoções fortes no programa de hoje! Preparem-se... Vem pra cá, Antônio!!

(Entra Antônio, com dificuldades de caminhar, uma pessoa lhe auxilia. Cris entra com plaquinha de ESPANTO).

APRESENTADOR: Boa tarde, Antônio.

ANTÔNIO: Boa tarde.

APRESENTADOR: Primeiramente agradeço a sua coragem. Mas o Brasil quer saber... O que está acontecendo com você?

ANTÔNIO: Eu estava numa fase muito boa da minha vida quando de repente essa casca começou a crescer na minha pele. Eu estava trabalhando muito, no próximo ano iria me tornar CEO da People Connected, uma das maiores multinacionais que atuam no Brasil.

APRESENTADOR: Isso é realmente fantástico. E você toma alguma medicação especial?

ANTÔNIO: Só Rivotril, na hora do cafezinho… (cara de que isso é bem comum)
(Projeta-se o dado:
Rivotril, ansiolítico tarja preta, vendido apenas com retenção de receita, é o segundo medicamento mais consumido no Brasil).

APRESENTADOR: E quais foram os primeiros sintomas da doença?

ANTÔNIO: Primeiro eu não conseguia mais enxergar as pessoas direito, fui perdendo o foco...

APRESENTADORA: Gente! É verdade! (vai em Antônio, olha para os olhos dele, passa a mão em frente o rosto dele). Olha só, parece que ele tem olho de vidro!!

ANTÔNIO: Eu via minha mulher, meus funcionários, mas parece que eu não via.

APRESENTADORA: Gente, tô chocada! É isso mesmo! Ele me olha e atravessa...

ANTÔNIO: Depois acordava com uma sensação estranha no meu corpo, como se uma pedrinha de gelo estivesse passeando dentro de mim.

LÚCIA: Ah... Você não via a gente muito antes...
ANTÔNIO: Claro, você dorme o dia inteiro porque passa a noite fora. Onde é que você vai toda noite?

LÚCIA: Não é da sua conta! Não preciso dar satisfação, isso é machismo! Uma mulher não precisa prestar contas do que faz pra homem nenhum. Yes, we can!! E que diferença ia fazer se eu tivesse acordada? Você nunca está em casa.

APRESENTADOR: Calma, calma, calma. Antônio, é verdade o que Lúcia está dizendo?

ANTÔNIO: Eu trabalho sim! Eu que sustento suas viagenzinhas pro Muro de Berlim, suas meditações em Macchu Picho!

Lúcia não escuta.

APRESENTADOR: Calma. Vamos voltar à doença. Antônio, esses sintomas já haviam acontecido antes?

ANTÔNIO: Não, eu nunca tive problemas pra enxergar ninguém.

Lúcia ri.

APRESENTADORA: E o que os médicos dizem?

ANTÔNIO: Ah, médico não sabe de nada. Eu é que sei, e eu preciso trabalhar, a roda tá girando e eu aqui parado. 24h costumavam ser pouco pra mim. Eu sou obrigado a ficar em casa com essa fffff…. ffff… ffffilha que nem me escuta.

LÚCIA: (se levanta, começa a falar para o público e as câmeras). Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira. Não vai ter copa!!! Eu quero falar uma coisa pro Brasil, eu quero me pronunciar: O gigante não adormeceu! Se levanta daí!!! Se levanta desse sofá, meu povo!.

APRESENTADORA: A gente vai dar um pequeno intervalo. Fique com a gente.

(Apresentadora chuta o pau da barraca, manda que retirem Lúcia dali imediatamente. Isso é um absurdo, ela não é paga pra aguentar esse tipo de coisa, etc. Alguém entra com água novamente).

Volta o programa.

APRESENTADORA (calma, sorridente, para as câmeras): Estamos recebendo hoje Antônio, um caso ainda inexplicável da medicina. Lúcia, sua filha, estava aqui com a gente mas precisou sair pra atender um telefone urgente.
Música de suspense. Entra Cris com mesinha e instrumentos.

APRESENTADOR: Antônio hoje concordou em mostrar como essa misteriosa casca que tem crescido em todo o seu corpo é impenetrável. A medicina não explica, caro telespectador. E se fosse com você? (aponta os objetos)Temos aqui uma série de objetos com os quais tentaremos perfurar ou afetar de alguma maneira essa casca...  Para isso eu gostaria de convidar nossa psicóloga.

(Lorena entra)

APRESENTADOR: Você está preparado, Antônio? Você aí de casa, está preparado? Auditório?

A psicóloga pega a chave de fenda e tenta furar Antônio, que não reage à nada.

APRESENTADOR: É i-na-cre-di-tá-vel. Você não sentiu nada? Não sentiu essa chave de fenda te furando??

ANTÔNIO: Não.

APRESENTADOR: Você nunca viu isso antes, telespectador. Eu não posso acreditar no que eu estou vendo!!! Vamos tentar com outra coisa.  (Pega o café) Isso é café quente, auditório, nossa psicóloga pode conferir. (Entrega para Lorena).Será que ele vai reagir?

A psicóloga pega o café quente e joga em Antônio, que não reage à nada.

APRESENTADOR: É inacreditável! Nada parece fazer efeito na casca de Antônio. O que você sentiu?

ANTÔNIO: Nada.
(Lucia, que estava na coxia, entra louca, indignada. Pega a chave de fenda e tenta perfurar o pai)

LÚCIA: Isso não é novidade!! Você nunca sentiu nada. Eu vou exorcizar esse capetalismo de você. Seu egoísta! Você nunca me ouviu!

ANTÔNIO: Nem você!!
Antônio tenta impedi-la, mas não consegue. Ela provoca.

LÚCIA: Olha só o que eu faço com você! E agora, o que você vai dizer para os seus funcionários??
(A apresentadora coloca lenha na fogueira)

APRESENTADORA (simultaneamente): Um drama da vida real, algo nunca visto na tv brasileira. É inacreditável!

(Lúcia joga um copo de água na cara dele)

Lorena entra e pausa a cena.

TEXTO LORENA.

Lorena dá play na cena, a briga volta rapidamente. Dá pause.

TEXTO LORENA.


Embriões - pré-projeto

Quero fugir do meu umbigo. Sinto vontade de falar daquelas crianças da rodoviária, daquela menina pedindo uma cesta na porta do Big Box. Assisti ao documentário Número Zero e o filme Capitães da Areia, do romance de Jorge Amado. Tenho o espetáculo Agora e na hora de nossa hora, de Eduardo Okamoto, como referência. Após uma aula com Renato Ferracini, penso que poderia experimentar a técnica na construção de um futuro personagem. Entender e trabalhar com tensões, gestos, contrastes (como suave por dentro, tenso por fora), a experimentação corporal de hoje (27/03) me levou a lugares muito novos, sensações diferentes passaram por mim ao dançar dentro da agência do banco, meu corpo esteve poroso e tive trocas verdadeiras com o público. Consegui criar imagens internas que me ajudaram muito, como meu corpo feito de ferro entrando numa nuvem ou meu corpo envolto por uma camada de gelo, tentando quebra-la. “Para fora, para fora!” Como é difícil e como faz tudo fazer mais sentido. A mesma coisa tem sido trabalhada em coreografias com a Giselle... Compartilhar, compartilhar. Em Capitães de Areia, me interessou especialmente a relação entre Pedro Bala e Dora. Me lembrou a história de Jasão e Joana, que serve de pano de fundo para retratar os verdadeiros conflitos sócio-políticos de Gota d’água. Pedro e Dora e os outros personagens acabam criando uma empatia em quem assiste, você não os julga mal apesar dos delitos que a gangue comete, porque enxerga neles humanidade... há uma transformação da inocência em malícia, mas por motivos maiores do que eles. Além disso, a questão de deixar de ser criança/adolescente e se tornar adulto é bem interessante... o que é crescer? O apontamento sobre a busca de liberdade também me instiga... No Número Zero a questão também aparece... a rua proporciona liberdade, mas que liberdade é essa? É uma fatia de liberdade que parece satisfazer, engana o estômago, mas não deixa de ser amarga.

02/05
Primeira apresentação de cena – Abelardos, do primeiro ato de "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, com Júlia Horta.



02/05
Prostituição: ao ou efeito de prostituir(-se). 2. Comércio sexual profissional. 3. Modo de vida próprio de quem se prostitui.
Prostituir: 1. Tornar(-se) prostituta ou prostituto. 2 fig degradar(-se), aviltar(-se).
Prostituto: individuo que pratica o ato sexual por dinheiro.
Degradar: privar de graus, dignidades ou encargos.
Aviltar: tornar vil, envilecer. 2 humilhar, rebaixar. 3 baixar muito o preço de. Humilhar-se.

Que prostituição é urgente revelar?
 A prostituição do individualismo, do egoísmo, da indiferença, do não se afetar, de ficar alheio ao sofrimento e à necessidade do outro, a perda da generosidade, a busca do seu sucesso pessoal a qualquer custo, ganhar mais dinheiro, consumir, comprar, não deixar que as coisas e as pessoas te atravessem de verdade, não travar relações que passem de uma superficialidade. Não se importar, não enxergar, olhar só para o próprio umbigo, ao mesmo tempo defender um pensamento de coletividade, a Era de Aquário, que na teoria é lindo mas não acontece na prática. De descartar as pessoas como se descarta objetos, e colocar isso como centro da vida. É conquistar, é ter. Se matar em horas de trabalho, pegar um ônibus lotado todo dia, não ter tempo pra si, vontade de olhar pra dentro a ponto de perceber que se olha pra fora de uma maneira errada. Acho que esse olhar pra fora tem a ver com uma ausência de busca de um olhar pra dentro, porque acho que ao olhar pra dentro você se sensibiliza pra fora. Como as pessoas não olham pra dentro – elas olham pra dentro da internet, do que elas querem, deixam de perceber até a natureza, o que é belo, o que é simples, o que é extraordinário dentro do comum mesmo. E querem coisas cada vez mais extraordinárias e não enxergam o extraordinário nessas coisas que julgam serem extraordinárias. Acho que é uma prostituição do modo de se viver, sem amor, sem afeto, e é uma coisa que todo mundo procura, todo mundo quer, mas as atitudes não refletem muito isso. Você coloca o seu perfil no tinder, vc fica atualizando a sua página, se vendendo pro outro, vendendo uma imagem de si mesmo, pra que as pessoas te comprem, a gente acaba se vendendo também, além de querer consumir, nós nos tornamos objetos de consumo de nós mesmos. Eu vou te ter por um tempo determinado, depois eu te descarto. Não vou me envolver com aquilo porque aquilo não me interessa. Me interessa conquistar o que eu quero conquistar. Minha carreira, meu dinheiro, minha casa. E as pessoas que procuram outro modo de vida são julgadas como fracas, como alienadas porque o mundo é assim, o mundo corre assim, o mundo tem essa velocidade, é globalizado, é rápido, é tudo aqui e agora mas é um aqui e agora distorcido do real valor do presente, do aqui e agora, tanto que há poucas experiências que também te atravessem. São experiências que não penetram a casca.

09/05/2014
Texto construído a partir da leitura de Brecht (Luz nas Trevas), pegando a doença como símbolo e do meu texto sobre a prostituição/indiferença.

Mensagem não enviada
Desde 2004, Antônio sofre de uma grave doença. De origens ainda desconhecidas, frequentemente Antônio escuta “Nossa, será que isso não pega?”. Os médicos não sabem dizer se é contagiosa, fato é que a vizinha do terceiro andar parece desenvolver os mesmos sintomas, embora Antônio e a vizinha não tenham nenhum contato. Observa-se na Cascaridíase o crescimento de um extrato externo e epidérmico, formado por tecido morto. Embora exames tenham indicado que no interior de Antônio ainda exista tecido vivo, mole e úmido, este homem vem perdendo gradativamente sua capacidade de locomoção e comunicação.
A evolução da doença também é misteriosa. Observou-se que a interferência de ondas de rádio que viajam pelo ar, especialmente de telefones celulares, pioram o estado de Antônio:
- Antônio: Eu estava numa fase muito boa da minha vida quando o invólucro começou a se desenvolver. Meu plano de carreira ia bem, no próximo ano me tornaria vice-presidente da Connecting People. Tomava alguns remédios pra ansiedade e Ritalina, mas todo mundo estava tomando, na hora do cafezinho era batata. A primeira coisa que começou a parar foram meus dedos. Primeiro eles se moviam descontrolados até que não consegui mais mexer nada, nem enviar uma mensagem, nem trabalhar no computador, foi desesperador. Os médicos dizem que meu sistema imunológico não reconhece o vírus como uma ameaça... Eu não entendo.    
Antônio afirma que possuía uma rede de contatos enorme, e não sofria de outra doença conhecida como a Coceira da Solidão, mas que depois da Cascaridíase as pessoas desapareceram.
- Me sinto excluído da sociedade. Quando parei de responder as mensagens, por conta da doença, as pessoas se esqueceram de mim.

14/05 – Giselle Rodrigues e Fernando Villar vão nos orientar! Aula pic-nic em comemoração, discussão sobre as prostituições. 



Nitza nos perguntou: Que resposta você espera receber do público com a peça?
Perceber que nos prostituímos de muitas formas, se reconhecer nas cenas, reconhecer as prostituições veladas. Pensar: sou tão prostitutx quanto essas prostitutas.

Eu já me prostituí?
Corpo revelado – alma velada.

cenas que revelem prostituições inesperadas.
- prostituição do self; prostituição do tempo (será o tempo a nossa nova moeda de troca?)

16/05
Prostituição do self - Prostituição de si mesmo. Nos prostituímos de forma consciente e inconsciente (ego e self). O que velamos? O que revelamos?
“Arquétipo da ordem e totalidade, abrangendo o consciente e o inconsciente, e que embora polares, não representam opostos, mas sim uma relação de complementaridade, tendo o self como mediador e gestor dos recursos e conteúdos do individuo.” (artigo Jung)
“A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda” (CHAUÍ, 1996 p.8-9).
Contudo, alguns homens fogem da angustia, procuram preencher seu vazio de modo impessoal, vivem uma vida inautêntica. Buscam preencher seu vazio na banalidade da vida cotidiana. A impessoalidade torna a vida mais segura e monótona.  Fazer o que os outros fazem torna a vida mais fácil.  Nos dias atuais muitos preenchem seu vazio em divertimentos e no consumo. Os indivíduos buscam ainda cargos, poder, dinheiro, sexo para fugir da  angústia e da responsabilidade por sua vida.  O mal de tudo isso é que buscam as agitações da vida como se a posse das coisas que buscam devesse torná-los verdadeiramente felizes. O problema é que não os tornam, nunca estão satisfeitos com nada. A grande consequência disso é que abandonam seu projeto essencial. As preocupações da vida constantemente os distraem e o perturbam.  “O ser-humano, em sua vida cotidiana, seria promiscuamente público e reduziria sua vida à vida com os outros e para os outros, alienando-se totalmente  da principal tarefa que seria o tornar-se si mesmo” (CHAUÍ, 1996 p.8).

è  Estar em muitos lugares (o que a internet permite) e não estar aonde se verdadeiramente está. Ter a impressão de que não pertence a nenhum lugar.

Quem você é de verdade, quem você projeta para os outros? Qual a sua casca?
(dialoga com prostitutas sexuais e nós mesmos)

“A carcaça está muito bem treinada pra fingir que sou eu. Talvez se você me vir de novo, eu te reconheça. Isso tampouco vai significar que sou eu. A carcaça lembra de rostos e nomes. Ela olha nos seus olhos enquanto você fala. Não se preocupe. Ela é uma boa pessoa. Ela é uma pessoa melhor do que eu. Preferia mil vezes estar aqui, falando com você. Mas tem alguma coisa que me puxa pra lá. É mais forte do que eu.”
(gregorio duviver – não estou aqui – folha)

IDEIAS / anotações:a partir do Doc. "Nascidos em bordéis: crianças da luz vermelha"
- Cena: mulheres paradas e grupo passando (bloco/massa sem rosto). 10'26''. Música Wong Kar Wai.
- Papagaio/pipa como símbolo de liberdade, futuro, voar, ir pra longe. Soltar pipa do lado de fora do teatro.
- Zoológico - animais na jaula (dialoga com referência Rei da Vela) - mulheres nessa prisão / bola de neve.
"Tenho medo de me tornar uma delas".
"Não há uma coisa chamada esperança no meu futuro." (Avijit)
- Burocracias (formulários) 47'30'' - dialoga com cena da Thamires (pode ser usado para enriquecer o texto)
- Medo das doenças, mesmo se prevenindo.