Quero fugir do meu umbigo. Sinto vontade de falar daquelas crianças da rodoviária, daquela menina pedindo uma cesta na porta do Big Box. Assisti ao documentário Número Zero e o filme Capitães da Areia, do romance de Jorge Amado. Tenho o espetáculo Agora e na hora de nossa hora, de Eduardo Okamoto, como referência. Após uma aula com Renato Ferracini, penso que poderia experimentar a técnica na construção de um futuro personagem. Entender e trabalhar com tensões, gestos, contrastes (como suave por dentro, tenso por fora), a experimentação corporal de hoje (27/03) me levou a lugares muito novos, sensações diferentes passaram por mim ao dançar dentro da agência do banco, meu corpo esteve poroso e tive trocas verdadeiras com o público. Consegui criar imagens internas que me ajudaram muito, como meu corpo feito de ferro entrando numa nuvem ou meu corpo envolto por uma camada de gelo, tentando quebra-la. “Para fora, para fora!” Como é difícil e como faz tudo fazer mais sentido. A mesma coisa tem sido trabalhada em coreografias com a Giselle... Compartilhar, compartilhar. Em Capitães de Areia, me interessou especialmente a relação entre Pedro Bala e Dora. Me lembrou a história de Jasão e Joana, que serve de pano de fundo para retratar os verdadeiros conflitos sócio-políticos de Gota d’água. Pedro e Dora e os outros personagens acabam criando uma empatia em quem assiste, você não os julga mal apesar dos delitos que a gangue comete, porque enxerga neles humanidade... há uma transformação da inocência em malícia, mas por motivos maiores do que eles. Além disso, a questão de deixar de ser criança/adolescente e se tornar adulto é bem interessante... o que é crescer? O apontamento sobre a busca de liberdade também me instiga... No Número Zero a questão também aparece... a rua proporciona liberdade, mas que liberdade é essa? É uma fatia de liberdade que parece satisfazer, engana o estômago, mas não deixa de ser amarga.
02/05
Primeira apresentação de cena – Abelardos, do primeiro ato de "O Rei da Vela", de Oswald de Andrade, com Júlia Horta.
02/05
Prostituição: ao ou efeito de prostituir(-se). 2. Comércio sexual profissional. 3. Modo de vida próprio de quem se prostitui.
Prostituir: 1. Tornar(-se) prostituta ou prostituto. 2 fig degradar(-se), aviltar(-se).
Prostituto: individuo que pratica o ato sexual por dinheiro.
Degradar: privar de graus, dignidades ou encargos.
Aviltar: tornar vil, envilecer. 2 humilhar, rebaixar. 3 baixar muito o preço de. Humilhar-se.
Que prostituição é urgente revelar?
A prostituição do individualismo, do egoísmo, da indiferença, do não se afetar, de ficar alheio ao sofrimento e à necessidade do outro, a perda da generosidade, a busca do seu sucesso pessoal a qualquer custo, ganhar mais dinheiro, consumir, comprar, não deixar que as coisas e as pessoas te atravessem de verdade, não travar relações que passem de uma superficialidade. Não se importar, não enxergar, olhar só para o próprio umbigo, ao mesmo tempo defender um pensamento de coletividade, a Era de Aquário, que na teoria é lindo mas não acontece na prática. De descartar as pessoas como se descarta objetos, e colocar isso como centro da vida. É conquistar, é ter. Se matar em horas de trabalho, pegar um ônibus lotado todo dia, não ter tempo pra si, vontade de olhar pra dentro a ponto de perceber que se olha pra fora de uma maneira errada. Acho que esse olhar pra fora tem a ver com uma ausência de busca de um olhar pra dentro, porque acho que ao olhar pra dentro você se sensibiliza pra fora. Como as pessoas não olham pra dentro – elas olham pra dentro da internet, do que elas querem, deixam de perceber até a natureza, o que é belo, o que é simples, o que é extraordinário dentro do comum mesmo. E querem coisas cada vez mais extraordinárias e não enxergam o extraordinário nessas coisas que julgam serem extraordinárias. Acho que é uma prostituição do modo de se viver, sem amor, sem afeto, e é uma coisa que todo mundo procura, todo mundo quer, mas as atitudes não refletem muito isso. Você coloca o seu perfil no tinder, vc fica atualizando a sua página, se vendendo pro outro, vendendo uma imagem de si mesmo, pra que as pessoas te comprem, a gente acaba se vendendo também, além de querer consumir, nós nos tornamos objetos de consumo de nós mesmos. Eu vou te ter por um tempo determinado, depois eu te descarto. Não vou me envolver com aquilo porque aquilo não me interessa. Me interessa conquistar o que eu quero conquistar. Minha carreira, meu dinheiro, minha casa. E as pessoas que procuram outro modo de vida são julgadas como fracas, como alienadas porque o mundo é assim, o mundo corre assim, o mundo tem essa velocidade, é globalizado, é rápido, é tudo aqui e agora mas é um aqui e agora distorcido do real valor do presente, do aqui e agora, tanto que há poucas experiências que também te atravessem. São experiências que não penetram a casca.
09/05/2014
Texto construído a partir da leitura de Brecht (Luz nas Trevas), pegando a doença como símbolo e do meu texto sobre a prostituição/indiferença.
Mensagem não enviada
Desde 2004, Antônio sofre de uma grave doença. De origens ainda desconhecidas, frequentemente Antônio escuta “Nossa, será que isso não pega?”. Os médicos não sabem dizer se é contagiosa, fato é que a vizinha do terceiro andar parece desenvolver os mesmos sintomas, embora Antônio e a vizinha não tenham nenhum contato. Observa-se na Cascaridíase o crescimento de um extrato externo e epidérmico, formado por tecido morto. Embora exames tenham indicado que no interior de Antônio ainda exista tecido vivo, mole e úmido, este homem vem perdendo gradativamente sua capacidade de locomoção e comunicação.
A evolução da doença também é misteriosa. Observou-se que a interferência de ondas de rádio que viajam pelo ar, especialmente de telefones celulares, pioram o estado de Antônio:
- Antônio: Eu estava numa fase muito boa da minha vida quando o invólucro começou a se desenvolver. Meu plano de carreira ia bem, no próximo ano me tornaria vice-presidente da Connecting People. Tomava alguns remédios pra ansiedade e Ritalina, mas todo mundo estava tomando, na hora do cafezinho era batata. A primeira coisa que começou a parar foram meus dedos. Primeiro eles se moviam descontrolados até que não consegui mais mexer nada, nem enviar uma mensagem, nem trabalhar no computador, foi desesperador. Os médicos dizem que meu sistema imunológico não reconhece o vírus como uma ameaça... Eu não entendo.
Antônio afirma que possuía uma rede de contatos enorme, e não sofria de outra doença conhecida como a Coceira da Solidão, mas que depois da Cascaridíase as pessoas desapareceram.
- Me sinto excluído da sociedade. Quando parei de responder as mensagens, por conta da doença, as pessoas se esqueceram de mim.
14/05 – Giselle Rodrigues e Fernando Villar vão nos orientar! Aula pic-nic em comemoração, discussão sobre as prostituições.
Nitza nos perguntou: Que resposta você espera receber do público com a peça?
Perceber que nos prostituímos de muitas formas, se reconhecer nas cenas, reconhecer as prostituições veladas. Pensar: sou tão prostitutx quanto essas prostitutas.
Eu já me prostituí?
Corpo revelado – alma velada.
- cenas que revelem prostituições inesperadas.
- prostituição do self; prostituição do tempo (será o tempo a nossa nova moeda de troca?)
16/05
Prostituição do self - Prostituição de si mesmo. Nos prostituímos de forma consciente e inconsciente (ego e self). O que velamos? O que revelamos?
“Arquétipo da ordem e totalidade, abrangendo o consciente e o inconsciente, e que embora polares, não representam opostos, mas sim uma relação de complementaridade, tendo o self como mediador e gestor dos recursos e conteúdos do individuo.” (artigo Jung)
“A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferenciação da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda” (CHAUÍ, 1996 p.8-9).
Contudo, alguns homens fogem da angustia, procuram preencher seu vazio de modo impessoal, vivem uma vida inautêntica. Buscam preencher seu vazio na banalidade da vida cotidiana. A impessoalidade torna a vida mais segura e monótona. Fazer o que os outros fazem torna a vida mais fácil. Nos dias atuais muitos preenchem seu vazio em divertimentos e no consumo. Os indivíduos buscam ainda cargos, poder, dinheiro, sexo para fugir da angústia e da responsabilidade por sua vida. O mal de tudo isso é que buscam as agitações da vida como se a posse das coisas que buscam devesse torná-los verdadeiramente felizes. O problema é que não os tornam, nunca estão satisfeitos com nada. A grande consequência disso é que abandonam seu projeto essencial. As preocupações da vida constantemente os distraem e o perturbam. “O ser-humano, em sua vida cotidiana, seria promiscuamente público e reduziria sua vida à vida com os outros e para os outros, alienando-se totalmente da principal tarefa que seria o tornar-se si mesmo” (CHAUÍ, 1996 p.8).
è Estar em muitos lugares (o que a internet permite) e não estar aonde se verdadeiramente está. Ter a impressão de que não pertence a nenhum lugar.
Quem você é de verdade, quem você projeta para os outros? Qual a sua casca?
(dialoga com prostitutas sexuais e nós mesmos)
“A carcaça está muito bem treinada pra fingir que sou eu. Talvez se você me vir de novo, eu te reconheça. Isso tampouco vai significar que sou eu. A carcaça lembra de rostos e nomes. Ela olha nos seus olhos enquanto você fala. Não se preocupe. Ela é uma boa pessoa. Ela é uma pessoa melhor do que eu. Preferia mil vezes estar aqui, falando com você. Mas tem alguma coisa que me puxa pra lá. É mais forte do que eu.”
(gregorio duviver – não estou aqui – folha)
IDEIAS / anotações:a partir do Doc. "Nascidos em bordéis: crianças da luz vermelha"
- Cena: mulheres paradas e grupo passando (bloco/massa sem rosto). 10'26''. Música Wong Kar Wai.
- Papagaio/pipa como símbolo de liberdade, futuro, voar, ir pra longe. Soltar pipa do lado de fora do teatro.
- Zoológico - animais na jaula (dialoga com referência Rei da Vela) - mulheres nessa prisão / bola de neve.
"Tenho medo de me tornar uma delas".
"Não há uma coisa chamada esperança no meu futuro." (Avijit)
- Burocracias (formulários) 47'30'' - dialoga com cena da Thamires (pode ser usado para enriquecer o texto)
- Medo das doenças, mesmo se prevenindo.


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