segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Reflexões prático~teóricas

Sobre a primeira cena: Road to Nowhere.

Entramos com um comprimido na mão. Pegamos uma taça. Brindamos "ao Universo lá fora" e "a nós e a verdade". Tomamos o comprimido. Temos uma reação - vibrátil. Temos o maior orgasmo de nossas vidas. Morremos.

Sobre os gestos e ações dessa cena:

O gesto é uma ação periférica do corpo, não nasce do interno do corpo, mas da periferia. Ao contrário a ação é algo mais, porque nasce do interno do corpo, está radicada na coluna vertebral e habita o corpo. (Grotowski)

-> O movimento vibrátil vem de dentro: ao tomar o comprimido, ele gera um efeito interno, uma vibração que começa nos órgãos, estômago, pulmões, traqueia, bexiga, cérebro, veias, sexo, e se contamina para as extremidades, em espasmos. Na cabeça, um filme da vida da personagem (na concentração para a execução e percepção do movimento ainda não consigo trazer essas imagens, mas a princípio penso que Antônio se encontra desiludido da vida nesse momento. Ele se apaixonou pela primeira vez, viveu uma libertação sexual, o amor, ainda que questione o sujeito de seu amor. Mas seus funcionários descobriram o caso com uma travesti. Ele se envergonha, e a preocupação com a imagem, o auto-preconceito o impede de continuar. Termina o romance, não vai mais trabalhar. Se tranca, se vê completamente sozinho, portanto a morte não seria mal. "Ao Universo lá fora" - teria motivos para brindar ao universo lá fora? O Universo contribuiu para que ele se tornasse essa pessoa narcisista, umbiguista - a não presença dos pais, o dinheiro, o poder. À nós? Não se importa com as pessoas - a única pessoa com quem realmente se importou já não está na sua vida. A verdade - a morte - seria a única coisa que o faria brindar, uma possível libertação... A multidão também é hostil e horrível para ele, a multidão (e ele mesmo) o impedem de viver plenamente. Neste momento há uma grande tomada de consciência.

Ação física: um fluxo muscular-nervoso com total engajamento psicofísico em conexão ou com algo externo (seja objeto, espaço, outro corpo (ator ou espectador), imagem, e mesmo outra ação física) e que é formalizada, estruturada, ritmada, enfim, codificada no tempo-espaço. (Ferracini)


A ação física é relacional. A suposta “humanidade” e presença percebidas em uma ação física constroem-se nessa relação. Ela não mergulha em um suposto interior emocional do ator, ou se conecta com alguma essência humana profunda e interna. Muito pelo contrário, a ação física se conecta com o fora, ela é um corpo integrado - e por isso relaciona todo seu universo “interno” em fluxo – e projeta esse fluxo na relação com o mundo.

As bordas e fronteiras entre um suposto interno e um suposto externo se diluem na própria ação física. Ela - a ação - se projeta para fora ao mesmo tempo em que esse fora afetado, atinge e afeta ela mesma.

Interessante ressaltar a presença e afetação do outro nessa cena. Há uma atividade de construção interior, mas outras nove pessoas estão realizando a mesma ação física - estamos todos integrados, os gemidos, os corpos se debatendo no chão, os sons de orgasmo, as trocas de olhares - comungamos esse momento. A percepção do todo, como o todo afetae e como eu afeto o todo.


Na cena do espelho (que acontece posteriormente - a apresentação de Antônio), mesmo falando para mim mesmo, olhando no espelho, preciso pensar em quem afeto, em comunicar àquelas pessoas (mesmo que esteja falando merda) e em me deixar afetar por elas. Como eu me afeto se não há troca de olhares com o público? Talvez seja uma questão energética de compartilhamento do mesmo espaço: o teatro é um lugar de encontro e as fronteiras entre ator e plateia são tênues - a quarta parede nesse caso possui rachaduras, que permite o fluxo e troca de energia. Sem esquecer da reação da plateia, algo que ainda não sabemos como será.

Ação física (de Grotowski) corresponde à matriz (do LUME) que corresponde à Alegria (de Espinoza).

A capacidade de afeto de uma matriz determina sua própria potência. É o afeto e não a ação consciente do movimento que produz a potência da matriz. Quanto mais porosa a matriz, mais potente ela será. A capacidade de afetar-se pelo mundo e não a capacidade de atuação consciente
nele é o que define a potência da matriz.

Atividade ~ passividade

No corpo, assim como na matriz poética, o agir se produz pelo afeto. A preparação do ator deveria focar seu trabalho muito mais em sua capacidade e em seu poder de ser afetado do que em seu poder de afetar. É por isso que a pretensa intenção do atuador de “atingir o público” com sua
ação parte de uma premissa equivocada. O ator busca ser afetado pelo mundo ao seu redor para, com isso e por meio disso, agir diferenciando-se em suas micro-ações. Esse poder de ser afetado também não deve ser confundido como causa-efeito: o atuador não se afeta para depois agir. Ele, em realidade, age com o afeto, no afeto, pelo afeto.

***

-> Sobre a memória e como ela pode potencializar a cena do orgasmo. Nós partimos do corpo e do movimento para gerar em nós um estado sensorial (e irradiá-lo para o público), mas fiquei pensando também em outros sentidos que não vieram na experimentação (para mim): cheiros, sabores e imagens que podemos trazer para nos ajudar a potencializar esse estado. Mas me parece que as memórias acionadas nessa cena não são imagéticas, elas tem essa característica ontológica citada por Ferracini. Também na cena da terapia, essa questão da memória pode ser pensada:

A memória virtualiza o passado em um presente que sempre passa. Mas o passado virtual não se traduz por arquivos acumulados em formas de lembranças concretas, mas precipita-se em uma duração virtualizada que se in-corpora independentemente de nossa vontade e gera uma espécie de memória ontológica ou ainda uma memória em duração corpórea.

Mas a ação de atualização não é uma ida do presente ao passado em uma espécie de re-vivência da lembrança, mas uma atualização é uma vinda do passado ao presente que gera uma recriação da lembrança enquanto potência virtualizada no aqui agora. É por isso que toda atualização é uma criação: a vinda do passado ao presente recria a passado nesse mesmo presente.


Acredito que haja uma espécie bem específica de atualização de memória que é a sua atualização corpórea para um fim estético. Estamos falando, agora, da capacidade do atuador em buscar uma atualização dessa virtualidade de memória, recriando-a em um fluxo corpóreo poético (...) realizada por meio de ações físicas ou matrizes corpóreas. (...) Atualização de vivências e experiências com o corpo, pelo corpo, através do corpo.

Sobre a Vivência e complementando:

Claro que não estou falando aqui de um elemento meramente mental no sentido de uma lembrança racional, mas essa vivência como virtualidade potente no próprio corpo-memória, ou seja, não devemos entender memória e vivência como experiências mentais ou meramente imagéticas, localizadas em um ponto específico chamado cérebro, mas devemos entender essas vivências como vivências corpóreas, vivências-subjéteis. Será que ainda necessitamos provar o corpo integrado? Memória é corpo, já gritavam tantos pesquisadores teatrais. Continuemos a gritar, então...

Por meio do afeto, e não da ação consciente no espaço-tempo e da precisão de sua mecanicidade, ampliamos o conceito de “treinamento”: um “treinar” pode estar inserido na ação de, por exemplo, sair às ruas e vivenciar experiências, observar os fluxos cotidianos, olhar as relações sociais a ponto de gerar um afeto, uma experiência e uma vivência intensiva. Um ensaio pode ser um estado de trabalho constante na busca de experiências e suas vivências e, é claro, o próprio estado cênico se configura como uma fonte constante de experimentação. O território do “treinar” é muito mais amplo que um espaço-tempo destinado à realização de exercícios mecânicos ou busca de precisão plástica. O “treinar” se configura muito mais como uma postura ética na relação com o corpo, com o espaço, com as relações sociais, com suas próprias singularidades. Um atuador deve estar em constante treinamento ou, em outras palavras: um performador deve estar na busca constante de fissurar seus limites de ação procurando uma potência possível de expressão, seja em uma sala de trabalho, seja no ensaio de um espetáculo, seja dentro do próprio espetáculo, seja em um happening ou uma performance. No espetáculo e na ação performática se treina, assim como no cotidiano pode se encontrar estados cênicos. O importante é encontrar potências de experiências que produzem vivências e que em si mesmas mantêm sua força vital: experiência como força motriz que lançadas como virtuais potentes na memória dos atuadores serão sua fonte inesgotável de organicidade e vida em toda sua força de diferenciação.

(In Revista Urdimento, artigo Ação Física: Afeto e Ética, de Renato Ferracini)


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