"O teatro, tal como todas as outras artes, tem estado, sempre, empenhado em divertir. E é este empenho, precisamente, que lhe confere, e continua a conferir, uma dignidade especial. Como característica específica, basta-lhe o prazer, prazer que terá de ser, evidentemente, absoluto. Tornando-o um mercado abastecedor de moral, não o faremos ascender a um plano superior; muito pelo contrário, o teatro deve justamente se precaver nesse caso, para não degradar-se, o que certamente sucederá se não transformar o elemento moral em algo agradável ou, melhor, susceptível de causar prazer aos sentidos. Tal transformação irá beneficiar, justamente, o aspecto moral. Nem sequer se deverá exigir ao teatro que ensine, ou que possua uma utilidade maior do que uma emoção de prazer, quer orgânica, quer psicológica. O teatro precisa continuar a ser algo absolutamente supérfluo, o que significa, evidentemente, que vivemos para o supérfluo. E a causa dos divertimentos é, dentre outras, a que menos necessita de ser advogada."
"Qual o prazer específico, a diversão própria da nossa época?"
Na segunda-feira, primeiro dia de trabalho, manifestei minha vontade de levarmos o teatro às pessoas. Se as pessoas não vão ao teatro, levemos o teatro às pessoas. Em nossa época, este não tem sido um prazer que as pessoas buscam recorrentemente. O teatro de rua, infelizmente, não pareceu uma opção desejada pela turma, pelas particularidades desse fazer, por questões técnicas. Não sei por que. Independente disso, compartilhei que, se na caixa preta, espero mais do que simplesmente me sentar em uma cadeira e de longe assistir a uma encenação bem executada mas que não me mova. Me lembrei do filme Tatuagem, em que o grupo de teatro se apresenta em um espaço convidativo, despojado, informal, cotidiano, em que certamente o prazer se manifesta, mesmo que ali no palco sejam representadas questões morais. Atores e público estão à vontade e se divertem. É um espaço assim que desejo e que penso se aproxima à realidade da rua que será retratada. Se não podemos estar na rua, que ao menos proporcionemos a atmosfera de liberdade da rua. A rua é livre, e é por isso que as garotas de programa estão nela.
Neste teaser do filme se pode vislumbrar um pouco desse ambiente: http://www.youtube.com/watch?v=V22fj-hSUyo
Esses trechos foram retirados do Pequeno Órganon para o Teatro. Brecht, falando para o público, parece tratá-lo de uma forma tão direta e aberta. Isso me interessa. Em outras palavras, diz: Não se esqueçam de quais são seus interesses (que são uma fonte de alegria) enquanto estiverem conosco. Entregamos o mundo aos seus cérebros e aos seus corações para que o modifiquem a seu critério.
Que haja comunicação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário