Refletindo sobre a cena que criamos semestre passado, o talkshow, concluí que me aventurei por um caminho que não tenho muito domínio. Em um exercício de escrita coletivo, mas encabeçado por mim, eu diria, escrevemos a cena. Isto é, partimos da construção textual. Personagens e falas vieram da imaginação, de pesquisas na internet e claro, de tudo o que borbulhava dentro de cada um, embora não ache que a cena tenha contemplado as vontades das outras atrizes.
Minha criação parte do corpo. As montagens que considero mais influenciadoras em minha trajetória tiveram como ponto de partida o corpo. Em Gota, montagem de Interpretação e Montagem, exploramos matrizes e partituras corporais; nos trabalhos do NEM, levantamos material por meio da improvisação, que dá abertura para o som e a palavra, mas que também parte do movimento. De forma semelhante, embora com diferentes abordagens, nos três TEAC's junto à Márcia Duarte, em Movimento e Linguagem 4 com "Estoy Solito", no meu projeto de direção "Dodecaedro", na peça "Na ponta dos pés" (Teatrando Montagem)... Enfim, vejo que nesses casos o texto veio depois. Mesmo que já houvesse um texto, como em Gota ou Dodecaedro, ele foi incorporado depois da experimentação física.
Assim, o estado corporal e as sensações que a ação física, o movimento, o jogo geram em mim são muito importantes para o meu posterior trabalho de texto. Por mais que se diminua, se elimine, deixando o físico em uma proporção mais interna do que externa, preciso deste motor que é menos psicológico.
Lendo sobre Meierhold, encontro cruzamentos com essa forma de criar. Guinsburg diz que:
(...) precisão e racionalização eram primordiais. Cada gesto, cada dobra do corpo devia obedecer a um desenho exato, pois se a forma é justa, afirmava Meierhold, as entonações e as emoções também hão de sê-lo. Nesse caso, tratava-se de atuar primeiro fisicamente e não de sentir primeiro psicologicamente, como pretendia Stanislavski (...) Tratava-se de dominar, mediante o seu princípio, as leis da movimentação do ator no espaço cênico por meio de experiências relativas a esquemas de exercícios corporais e processo de desempenho.
Não penso que a racionalização no meu caso seja tão importante, já que trabalho com a improvisação e com o que emana do inconsciente, do mergulho em si (que encontro reverberações com o Movimento Autêntico de Whitehouse). Mas sem dúvida, o que destaquei em negrito se aplica ao meu processo.
Sei que não há certo e errado, não sou discípulo de ninguém, prezo a liberdade artística e a inspiração nos mestres para fazer o seu. Mas certamente há afinidades e treinamentos que acabam te direcionando para um ponto de partida.
No caso da cena do talkshow, talvez tenha me equivocado de trazer primeiro o texto e a partir dele construir a cena. Foi algo que não estava habituado, um desafio que me envolveu mas que não é muito minha pegada. Já escrevi uma peça em uma disciplina de Dramaturgia, mas tive todo um semestre para imaginá-la e minhas experiências posteriores foram diferentes e mais frequentes: primeiro no corpo, e o texto nasce nas anotações, nos diários de bordo. Depois é revisto, reescrito, encontra-se uma referência que o enriquece, então é decorado, experimentado, incorporado ou não, etc. Ou se trabalha corporalmente e de repente (claro que nunca se para de buscar, não vai cair do céu) aparece um texto que faz todo o sentido, como aconteceu com um texto do Beckett que usei semestre passado no "Nem aí".
Enfim, que sirva de aprendizado, autoconhecimento, direcionamento para o que vem por aí, afinal todos queremos nos desafiar, mas também saber colocar na roda o que temos e fazemos de melhor.
Referência: J. Guinsburg, Stanislavski, Meierhold & Cia, pág. 80.
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